quarta-feira, 25 de março de 2015

Eu só quero escrever.

Quero escrever. Quero ser a ponta da caneta, que com firmeza descreve os cenários existentes na minha cabeça. Poderei eu ser uma caneta? E se for palavras? Será que posso ser alguma dessas coisas?

Eu gostava de ser o significado de algo, ter significado para alguém, ser a significância que tanto há quem procure e nem sempre os mais justos encontram.

Gostava de ser os sonhos que alimentei durante anos; gostava de ter capacidade de ser tudo o que um dia disse que queria ser; agricultor, polícia, bombeiro, jogador profissional de futebol, cantor, cientista...até astronauta eu gostava de ser. Até gostava de poder ser a minha escrita.

Só que o que eu gostava mesmo era ser algo útil e de valor. Algo que alguém precise, que valorize e que queira manter por perto.

Gostava mesmo, de forma genuína. Também gostava de não ser um mero objecto nas mãos erradas. Faz parte da minha tendência cometer os mesmos erros várias vezes, das mais variadas formas, tudo porque acredito que "desta vez é diferente", mesmo já eu sabendo que é mentira.

Eu quero escrever; só não quero escrever mais sobre os meus erros.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Uma questão de lógica...

Por vezes é complicado seguir uma linha lógica. Quer dizer, não há uma lógica pela qual se possa viver, senão vivíamos mediante uma estatística pré-concebida que nos levaria a agir de uma forma em determinada de outra e seríamos, muito facilmente, todos felizes. A lógica da minha existência prende-se apenas nos valores que acho correctos serem seguidos. A questão prende-se apenas na pergunta irritantemente repetitiva do "já te valeu de alguma coisa?" para a qual continuo a responder "vale-me ser uma pessoa íntegra e não um fantoche moldado pela sociedade que nos quer todos iguais; vale-me por conseguir ser eu próprio e isso me tornar tão único ao ponto de marcar as pessoas." É uma lógica que vale a pena seguir, mas que, como quem mete a sua fé em dúvida, eu meto essa lógica em dúvida. Mais do que um crente mete a fé no dia em que o mundo lhe desaba em cima.

Perdi-me. Assim como me perdi neste texto, sei que um dia me perdi algures no caminho que trilho para a minha vida. Perdi-me de tal forma, que nem sempre sei se me cheguei a encontrar. Eu estou diferente, mais lúcido, mais objectivo, mas não me parece que me tenha encontrado.

Pelo contrário, parece que estou cada vez mais distante do ser vivo que outrora fui. Não, não me perdi na rebeldia da adolescência, onde é suposto o mundo estar contra nós. Eu perdi-me em coisas de gente grande, durante a minha adolescência. Perdi-me, porque deixei que me guiassem enquanto eu tinha uma venda nos olhos. Foi um jogar à cabra cega que acabou terrivelmente mal. O tirar da venda foi o fim doloroso que eu não esperava ter. Voltar para trás foi a guerra que me deram e hoje não sei se estou a lutar essa guerra ou se estou a ser vítima de flashbacks. Pior que as guerras criadas por humanos, onde se perdem homens, cidades, valores, onde a lei que impera é a lei da bala, é a guerra interior que um ser singular batalha contra si mesmo e contra tudo o que lhe dão. Porque é uma guerra que pode não acabar.
Eu já só conto as cicatrizes. E elas estão expostas, rasgando-me os nervos até ao ponto onde o meu próprio raciocínio é o meu inimigo nº1. Um dia, tudo isto vai acabar. Eu sei que um dia vou sorrir, vou olhar para as cicatrizes e dizer "hoje já não me magoam mais" e vou seguir por um caminho diferente. Eu vou continuar a lutar até ao dia em que a máquina que bate dentro de mim parar.

Só espero que não acabe tarde demais.

O, I die, Horatio;
The potent poison quite o'er-crows my spirit
I cannot live to hear the news from England;
But I do prophesy the election lights
On Fortinbras: he has my dying voice;
So tell him, with the occurrent, more and less,
Which have solicited. The rest is silence.
 por William Shakespeare em «Hamlet»

sexta-feira, 6 de março de 2015

Escrevam uma estória...


Fui hoje, em conjunto com a minha turma, desafiado a escrever uma estória para a aula de Técnicas de Expressão Escrita e Oral. Vou deixar-vos com o resultado deste processo criativo espontâneo, como quase sempre faço e como gosto...com liberdade.

"Esta era uma folha. Não uma folha como as outras. Não! Esta é A folha. Começou por ser uma folha em branco. A esperança de se encher de cor era mais forte do que ela. O seu desejo de criar uma estória era equivalente ao desejo de uma caneta em ter uma folha na qual pudesse derramar a sua tinta. A caneta encontrou a folha, esta folha, mas faltava-lhe uma mão.
 - Cria a tua história, porque estôrias têm que ter uma mensagem! - gritava a caneta, pousada em cima da mesa. A mão, essa, estava desejosa de ser usada para conceber algo tão simples, mas que tivesse um impacto tão profundo na mente do criador e no imaginário do leitor.
Diz-me, caro leitor, como está a tua imaginação? Deixo-te espaço para escreveres:






Magnífico! Aposto que pensaste na imaginação escrita e não fechaste os olhos como era de esperar. Deixaste morrer a tua inocência da infância. Deixaste tudo para trás, porque pensaste que num mundo de adultos não tens tempo para a criança que alimentaste. A criança cresceu, o sonho desapareceu. Esta continua a ser A folha, que serve de pouso para a tinta desta caneta, segurada por uma mão que se limita a desenhar o que o criador pensa. E tudo sai fluído. A folha, banhada em tons de azul, enche-se de esperança; quer ser completa. Nunca o irá ser. Eu explico o porquê; porque o completar de uma folha não se deve ao facto de estar completamente preenchida de palavras. Completar uma folha é olhar para ela e ver padrões, imagens, letras, palavras...é ver a imaginação. Será que agora já imaginas? Consegues imaginar como eu? Claro que consegues.

Aquele espaço em branco, que gostava que tivesses preenchido? Lembra-te do que pensaste. Lembra-te dos detalhes. Lembra-te de ti.
O que seria esta folha sem esta palavras? O teu espaço!
Será que já te contei uma história? não conheces?
Eu ajudo-te...
Esta é a história de uma imaginação que te contou tudo numa folha. Sabes que mais? Vira a página...

Esta é a história de uma página em branco. Consegues vê-la?"