sábado, 25 de abril de 2015

Carta


Olá.


Não te escrevo a perguntar se está tudo bem contigo, porque ambos sabemos essa resposta. Escrevo-te antes para que saibas muitas coisas que te poderão ser úteis no futuro. Sabes, é que apesar de ires achar que não precisas saber o teu futuro e que és tu quem o faz, terás bem no fundo uma curiosidade em saber como são as coisas, como estão, que caminhos podes tomar ou não. Eu sei que um dia vais perceber tudo isto e muito mais. Não quero que penses, nem por um mísero segundo, que isto te facilita a vida, porque é mentira. Vais ter de continuar a fazer por ti e vais ter, acima de tudo, de saber esperar pela hora certa, porque por um segundo se ganha, por um segundo se perde.

Lembro-me de ti e de tudo o que fizeste. Penso em ti muito mais que umas horas por dia. Não sei, é como se estivesses dentro da minha cabeça desde que me lembro de ter memória. Lembro-me dos dias em que saltavas pelo Benfica, como adoravas aquela t-shirt não oficial, mas que mostrava o teu orgulho. De idolatrares o Rui Costa e da forma como aprendeste a ver e a jogar como jogava o João Pinto. Tinhas tanto talento para alguém tão novo. Acredita em mim, tu mexias-te como ninguém e a bola era uma constante da tua vida. Nunca quiseste saber de peluches, gostavas de carros, mas a tua paixão era redonda e só te servia para uma coisa: jogar à bola. Quiseste entrar para uma equipa de futebol e lá foste todo contente. Previam um futuro enorme, mas tu caíste. Levantaste-te, voltaste à luta, conquistaste muito. Depois relegaram-te para segundo plano. Voltaste a lutar, mas desta vez levaram-te de vencido e decidiste mudar. Foi a tua melhor escolha, porque voltaste a ter tudo nos teus pés. Deste tempo e começaram a engolir o facto de te terem perdido no antigo lugar. E sempre foi assim por onde passaste. Quando partias, algo se perdia e todos te temiam. Hoje olhas para ti e não te sentes realizado. A culpa é tua, sabes porquê? Porque falhaste uma vez e isso influenciou-te.

Lembro-me dos dias em que gastavas fitas de cassetes de música. Era o "Nevermind" de Nirvana que te fazia saltar do chão e cantar. Tinhas uma voz com muito potencial. Não a estragues. E se tiveres de escolher entre o futebol e a música, tenta conciliar os dois. Naquele que tiveres de vingar, acredita em mim, vais vingar. Mas lembro-me de quando soubeste da morte do teu cantor favorito...olhaste para as estrelas e pediste que elas o guardassem. Foi o teu primeiro desejo. Vais pedir muitos e acreditar que as estrelas são tuas confidentes e amigas. Umas vezes sim, outras vezes não. Mas na maioria das vezes, acredita que serão a tua maior força.


Quando tiveste Internet, gostava de te ter dito "Usa-a com sabedoria. Não te percas num mundo onde todos querem ser perfeitos". Porque tu perdeste-te. Tu descobriste coisas incríveis, mas deixaste que te controlassem. Acredita que depois da tua primeira namorada, nenhuma outra te vai fazer bem. Vão dizer-te que és o único, mas é tudo mentiras. Uma delas vai roubar-te o teu brilho, vai fazer de ti um farrapo, vai tornar-te numa pessoa diferente. Tu eras alegre genuinamente, agora és só um excelente actor. Não queiras isso. Tu vais andar de rastos, vais sentir-te uma nódoa, vais pensar que o mundo se virou contra ti. Não miúdo, o mundo está do teu lado. Só não devias ter deixado que te dessem tanta chapada. Mas tem orgulho em ti. Tornaste-te mais forte e nunca deixaste os teus valores para trás. A culpa é tua, sabes porquê? Porque tu deslumbraste-te com algo virtual e com alguém que fingiu existir. Aceita a ajuda. Já viste como a tua falha influenciou tudo em ti?

Eu sei que tens a Música como uma paixão. Foi a melhor coisa que algo tão negativo te deu. Devias praticar todos os dias, tentar ser melhor. Eu sei que consegues. Se falhares, a culpa é tua. Queres falhar outra vez? Acho que não. Assim como na escola, falhaste quando não devias. Falhaste de forma que nem sequer te reconhecia. Felizmente, tiveste uma nova chance e espero, genuinamente, que tenhas a maior sorte do mundo. A rádio é apelativa para ti, não é? Faz por conquistá-la miúdo!


Como vês, tenho boa memória e lembro-me dos teus sorrisos todos. A parte boa de algo mau, foi teres encontrado alguém que faz sentido para ti. Só tenho pena de uma coisa; tenho pena que não lhe tenhas dado o que querias dar e acredita que eu sei que tu não descansarias enquanto não lhe desses o maior sorriso que alguma vez uma pessoa daria a outra. Peço-te que pares de sentir esse ódio por ti próprio. Tu podes ter falhado, mas não te odeies porque tu tornaste-te naquilo que muitos sonhavam ser. O teu problema é que os teus sonhos, de quando eras pequeno, não se estão a realizar. Ainda vais a tempo de alguns e sei que tens capacidades para o conseguir, por isso, vai! Parte para a luta! Sei que há alguém que mexe contigo. Não é o mesmo que aquilo que já sentiste, mas mexe o suficiente para pensares que talvez dê certo. Tem cuidado rapaz. O facto de estares uma pessoa que não consegue sentir qualquer emoção vai-te acabar por ser positivo, mas o vazio que tens vai-te fazer sentir incapaz do que quer que seja. Sei quem ela é e digo-te já que é alguém que vale muito a pena. Espero que consigas, apesar de tu não acreditares muito nisso. Talvez seja melhor assim. Pelo menos, não te iludes e não vais abaixo. Mantém-te forte, principalmente nos teus pensamentos. Não deixes que o negativismo se apodere de ti todos os dias. Tu vais conseguir quebrar isso. Eu acredito em ti.


Esta carta já vai longa, mas tinha de te dizer umas coisas. Quando a leres, vais sentir um arrepio na espinha e pensar como foi possível eu ter escrito isto. Foi simples; saiu-me do coração. Porque eu preocupo-me contigo e quero o teu bem. Quero-te ver a sorrir novamente. Quero ver-te sem esse ódio.

Não espero uma resposta de volta. Atitudes chegam-me. É por isso que peço para te focares somente nisso.

Fica bem Luis. Se não nos voltarmos a encontrar, que seja por teres tudo o que sempre sonhaste. Nada é mais importante para mim que a tua felicidade.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

A Vida como um jogo de Monopólio

Dou por mim Às Voltas Com o Pensamento durante as conversas que tenho com as pessoas do meu dia-a-dia. Algumas conversas são do mais interessante e fascinante que tenho, outras são conversas que banais que me fazem sentir parte de um grupo de pessoas minimamente chegadas. Depois, como é óbvio, há aquelas conversas que não nos interessam com pessoas que estão ali "por acaso". Conversas fúteis.

Foque-mo-nos apenas nas conversas interessantes e fascinantes. Sou defensor de que todos aprendemos com todos. Considero ainda que o ambiente social é um factor de maior relevância no nosso crescimento, contrariamente à idade. Aprendo com todos os casos. Ultimamente, tenho aprendido com várias pessoas, várias coisas. E isso molda-me. Faz-me querer mudar e transformar numa pessoa melhor, porque é esse o meu objectivo; ser alguém melhor para os outros. Não importa o passado ou o quão mal tratado eu possa ter sido...sobrevivi a tudo isso, tornei-me melhor pessoa nuns aspectos, perdi-me noutros, mas sempre soube recomeçar do zero.

Tive bons momentos, tive péssimos momentos, hoje vivo numa montanha-russa. Tanto posso estar no pico do meu bem estar como posso estar completamente de rastos. No entanto, eu vou-me continuando a moldar e a aprender. A aprender a ser mais forte. Melhor. E tudo para que eu não seja um mero peão que se move ao sabor dos dados. Eu não lanço dados na minha vida. Não adquiro propriedades nem tão pouco sou uma propriedade. Quanto mais, posso ser uma prioridade e tratar alguém como prioridade. Só isso. Porque no final, o que importa mesmo é aprender a dar o primeiro passo depois das quedas. A partir daí, ninguém nos derruba, independentemente de estarmos mais fracos ou não. E tudo isto é um círculo vicioso que se irá prolongar para o resto de uma vida.

Por muitas voltas que a vida dê, nós acabamos sempre por voltar à "Casa Partida". Não, não quero comparar a vida a um jogo de Monopólio. Quero com isto dizer que das novas aprendizagens surgem novas metas, novas ideias, novas formas de pensar. E é aí, nessa onda de novidades, que temos de começar de novo. Cabe a cada um de nós, enquanto pessoas únicas, saber se estamos à altura de passar pelas casas "Prisão", "Estação da Campanhã" ou "Rossio" desta vida. Claro que vamos ter sempre as casas "Sorte" e "Caixa da Comunidade" onde podemos ganhar ou perder muito e até mesmo voltar atrás.


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Todos têm olhos, mas ninguém vê

 Não é fácil. Podia ser difícil perceber ou ter uma vaga ideia, mas consegue atingir um outro patamar. Um patamar que muito provavelmente é dos mais estranhos de sempre. Se eu tivesse de descrever tudo o que me vai na minha cabeça numa só palavra, diria que é enigmático. Há quem ache o enigmático sombrio. Há quem o ache positivo ou, sei lá, drástico. Eu não sei bem o que achar para além do enigmático. É que todos têm olhos, mas ninguém vê. E é tão óbvio. Ou será que fui eu que me transformei em algo diferente e não notei?  O cansaço, a maior falta de vontade, os rasgos de energia, a facilidade com que escondo um sorriso ou a habilidade com que finjo uma gargalhada de forma que parece honesta. Sempre vi na crença de um futuro risonho uma espécie de acreditar, uma renovada esperança. Sejamos sinceros, ninguém, mas ninguém, no seu perfeito juízo quer uma pessoa tão negativa por perto. Negativa para si própria, claro está. Mas isso influencia e muito aqueles que rodeiam essa pessoa. Como é que pode uma pessoa ser tão positiva para os outros e negativa para si própria?

A resposta é mais simples do que parece. É o esconder de emoções, o transformar de um calor num gelo que nem altas temperaturas conseguiriam transformar em líquido. É um ódio profundo e vincado por ter falhado em algum momento da sua vida e ter desperdiçado todas as grandes oportunidades. É o gritante sentimento de inutilidade, seja em que aspecto for. É o querer tanto algo e simplesmente não estar minimamente perto de o ter. É o sentir-se só, por muita gente importante que tenha à sua volta.

Nós tendemos a ser tão dramáticos sobre nós próprios quando há quem esteja bem pior. Talvez esse dramatismo seja o expoente máximo do egocentrismo de uma pessoa. Eu tenho os meus momentos trágico-dramáticos e confesso, não são bonitos. Fazem-me sentir vergonha por ser assim. Logo eu, que tanto dou aos outros, sinto vergonha de pensar em mim. Só em mim. Em mim. Só. Só de sozinho e só de apenas isso. Um duplo sentido, portanto.

A verdade que eu vejo é simples, demasiado simples. Todos têm olhos, mas ninguém vê o desastre. Todos têm ouvidos, mas ninguém ouve os gritos. São gritos mudos, mas que já ecoam há muito tempo. Porque tem tudo isto que ser assim? Certo, alguém vai perguntar "que se passa", a resposta é o simples "nada". Contudo, a verdade é essa. Não se passa nada. Tal como não se sente nada para além de tudo o que já aqui foi falado. Devia ser estranho, mas não é. É familiar, agonizante, mas acolhedor até se descobrir a forma de ultrapassar tudo isso.

Se eu me tornar profundamente emocional é sinal que estou ou apaixonado, ou a pressentir algo demasiado mau ou num estado depressivo muito perigoso.

Enigmático o suficiente? Talvez. Apenas não me peçam para falar.


sexta-feira, 3 de abril de 2015

O paralelismo do tempo sazonal e da evolução pessoal


É o tempo quem nos define. Sem o tempo, nós estaríamos presos a uma constante onde nunca mudaríamos a nossa forma de ser, estar e pensar. Nós agimos perante as mais variadas situações e evitamos cair num paradoxo que nos entrega ao conflito da nossa existência. Quantas vezes damos por nós, em situações idênticas, a agir de forma diferente? A culpa é do tempo, que nos permitiu aprender as consequências de determinados actos. Relutantes, insistimos na ideia de que estamos a fazer algo com uma perspectiva futura, quando na maior parte das vezes apenas deixamos o tempo passar por nós, quando devíamos ser nós a passar pelo tempo. Quantas vezes pensamos nós nisto?


As questões que levanto tendem a fazer-me não agir, porque a vontade de encontrar respostas é mais forte. Por culpa dessa vontade, abdico de outras coisas essenciais à minha existência. Abdico dos sentimentos, do que devia realmente fazer, das minhas paixões...abdico de passar pelo tempo. "Ser demasiado teórico não nos leva a lado algum". Estarei certo que muitos pensadores entrariam em desacordo comigo, mas esquecem-se que as linhas teóricas que estudam e/ou seguem só foram possíveis porque houve uma acção; a acção de publicar, de estudar. E o que tem isto a ver com o tempo? Tudo.

Eu gosto do tempo. Gosto, especialmente, das noites quentes do Verão e das noites com cheiro a Primavera. Aquele cheiro de frescura, de uma Natureza que se está a renovar...é flores, é ervas, é árvores...parece que todos os cheiros ficam mais intensos. E eu gosto tanto.



Sem sentido? Não. Olho para estas mudanças sazonais e reparo como o tempo me mudou ao longo de cada velho ciclo, outrora novo aquando da sua chegada. Não há Primaveras, Verões, Outonos nem Invernos iguais. Cada um é diferente, cada um é único, mas cada um tem um traço específico que mantém consigo. O que muda, maioritariamente, é a maneira como nós vemos e sentimos essas estações. Pessoalmente posso dizer que:

- No Inverno sou mais fechado e reservado. Gelo por dentro, gelo por fora;
- Na Primavera sou mais esperançoso. Continuo fechado sobre mim próprio, mas permito a chegada de algo que me mude;
- No Verão sou mais optimista. Quente por fora, ligeiramente menos frio por dentro;
- No Outono afasto-me da esperança e começo a fechar-me. Sou mais saudosista.

A todas as estações, é comum algum desses traços mudar, apesar do vazio ser uma constante. E quanto mais tempo passa, mais vazio me sinto.

É o tempo quem nos define. E quanto mais tempo passa, mais longe fico dos sentimentos e torno-me cada vez mais vazio. Mas neste momento estou esperançoso e espero que algo ou alguém me aproxime do que sinto. Espero que algo ou alguém acabe com este vazio.

Como eu gosto do cheiro de uma noite estrelada da Primavera!