domingo, 27 de dezembro de 2015

No Silêncio estou só

Certos acontecimentos têm a sua marca nas pessoas. Uns mais que outros, mas a marca fica lá. Cabe a cada um de nós aprender a viver com essas marcas. Cabe a quem nos rodeia, compreender o efeito que essas marcas tiveram em nós. Nem todos aguentam essas marcas, não conseguem viver com essas cicatrizes. A escolha de como essas cicatrizes são exteriorizadas depende também de cada um de nós. Enquanto uns decidem exteriorizar essas cicatrizes, no próprio corpo, outros fazem-no através do silêncio. Até no silêncio existem dois caminhos. Há quem prefira criar uma barreira imaginária para que ninguém veja, no sentido figurativo, essas cicatrizes. Outros decidem atalhar caminho para a única certeza que existe a partir do momento em que nascemos.

A mente humana é recheada de mistérios que ainda se tentam explicar. Como é que alguém perde a força? Como é que alguém tem a coragem e a fraqueza de maltratar o próprio corpo? Como é que alguém aguenta toda uma vida em silêncio dizendo que tudo está bem quando é mentira? Por muito que se tenta encontrar respostas, elas variam de pessoa para pessoa. Somos, enquanto humanos, seres únicos também por isso. Assim como não há duas impressões digitais iguais, não há duas formas iguais de lidar com a mesma situação. Somos arrastados por motivos diferentes na procura de nos tornarmos melhores pessoas ou de, pelo menos, afastar os outros que, por muito que nos tentem ajudar, só os vamos magoar mais. Uma boa analogia? A Terra pode não ser a única a girar em torno do Sol, mas é um planeta de características únicas.

A vida é uma caixinha de surpresas e eu não as vi todas. Se durante o meu caminho, até este momento, fui ensinado a lutar pelo que quero, também aprendi da forma mais dura o que é lutar para perder. Sempre tive a coragem de arriscar, sempre tive a força de aguentar a queda, mas as cicatrizes que ficaram? Aprendi a ignorá-las iludindo-me que estava a ficar mais forte. Pelo contrário, estou cada vez mais fraco. Decidi que o passo seguinte seria o da observação. O resultado foi o mesmo que das vezes em que decidi ouvir, das vezes em que decidi ler, das vezes em que decidi fazer para aprender. É como se perder fosse a condição. 

Lembro-me do mito de Prometeu. Em conjunto com o seu irmão Epimeteu, ficou responsável de criar todos os animais e dotá-los de determinadas características que os distinguissem dos outros. Epimeteu falhou no momento em que criou o Homem e não tendo mais características, recorre a Prometeu que rouba o fogo dos deuses, garantindo a superioridade dos Homens perante os restantes animais. Este acto, que salvaria o eu irmão Epimeteu, valeu-lhe o castigo de ficar acorrentado no monte Cáucaso onde uma águia lhe comeria o fígado todos os dias.

Sempre tentei proteger os outros, sempre tentei puxar pelo melhor de cada um. Sempre dei o meu melhor, mesmo quando não queria. Só que de nada me valeu querer ser uma pessoa melhor. De nada me valeu ser o que os outros queriam. Foram só mais marcas, mais cicatrizes que fui cultivando. Não me arrependo de o ter feito, apesar de tanto ter perdido. Foram tantas batalhas, tantas guerras. Se do meu reino sou Rei, o meu reinado são ruínas e já não existe mais força para reconstruir o que poderia ter sido um reino próspero que via a luz do Sol e o brilho da Lua. Só falta saber quando e qual será o desfecho desta história, mas eu? Eu estou cansado.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Mas Não é Meu

Todos os dias o vejo
E perco-me nesse sorriso que é teu
É sem dúvida o mais perfeito
Mas não é meu

O olhar, esse que te pertence
E que conta mil e uma histórias
É nesse teu olhar que eu me perco
Mas não é meu

Eu perco-me em prosas e poemas
Na tentativa de poder estar à tua altura
Invejo quem tem esse teu cantinho
Que não é meu

Assim como este não é o meu melhor escrito
O gostar é uma coisa estúpida como isto
E gostava de poder escrever algo melhor
Porque nem parece meu

Finalizo de forma mais curta
Deixa-me fazer-te esta pergunta
Sabes qual a semelhança entre este poema e o teu coração?
É que o teu coração nunca foi meu
E este poema? Este poema agora é teu.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Talvez um dia

«A realidade e os sonhos andam, muitas vezes, de mão dada. Não é algo que não soubesse já ser possível. O que não acreditava ser possível era fazer com que alguém pudesse viver o mundo no mesmo sítio que eu.» 

Sempre fiz com que as pessoas procurassem o melhor de si. Que encontrassem aquela luz que brilha dentro delas. Todas elas o fizeram com sucesso. Bem, quase todas. Um dia, já distante, conheci uma pessoa com uma luz própria superior a todas as que já tinha visto. Não era uma pessoa que estivesse perdida, mas que estava a descobrir-se. Foi, provavelmente, das pessoas para a qual mais me custou ser frio e distante numa tentativa de não me apegar. Custou-me ainda mais adiar o inadiável; esconder a pessoa que sou e o mundo em que vivo. Poderia chamar-lhe uma espécie de realidade alternativa camuflada na própria realidade. Eu próprio aprendi a camuflar-me, mas sabia que um dia alguém iria ver para lá da camuflagem. Essa pessoa chegou, na altura certa para mim, na altura errada para ela. Não digo isto como se me arrependesse de a ter conhecido. Digo isto porque devia ter pintado o mundo com outras cores. Eu já sabia onde estava e não queria que essa pessoa viesse para o mesmo sítio que eu.

Sempre fiz de tudo para que ninguém se tornasse igual a mim. Não sou um exemplo que alguém deva seguir. Talvez tenha aspectos que possam servir de exemplo, mas é na superfície. Porque iria alguém querer ser aquilo que eu sou por dentro? Porque iria alguém querer viver pensando que já nada tem a perder, a desejar que cada novo dia seja um dia menos negro, que traga um raio de luz ou que simplesmente seja um dia em que se sinta menos miserável? Ninguém. Só que essa pessoa viu esse lado de mim. Primeiro, quis desvendar o mistério. Depois de o desvendar, viu que algo mais misterioso existia. Resultado? Essa pessoa está a viver os dias da mesma maneira que eu. Perguntam-me então: "Se sabes que é mau, porque é que não mudas?". Porque eu não consigo mudar. As minhas qualidades ou virtudes foram construídas baseadas nessa forma de ser, estar e pensar. Se hoje luto pelas pessoas, é porque sei precisamente o que é não lutarem por mim quando eu precisei. Entre outras coisas, é uma batalha desigual que muitos não vencem. Não que eu seja melhor que eles, apenas ainda consigo aguentar as coisas. Sem prazo, porque a minha história faço-a eu, só que o ponto e vírgula algum dia terá de se tornar ponto final parágrafo.

Hoje estou à procura de uma pessoa. Uma pessoa que está a percorrer o mesmo caminho que eu percorri. A pessoa que viu para além da minha camuflagem. Hoje estou à procura dela, só para tentar salvá-la uma última vez. Se eu lhe der as minhas asas para que ela possa ser livre...será que ela escolhe voar ou partir? 

Apenas espero que não acabe como eu.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Contrastes


 As ruas estão praticamente desertas e nelas procuro encontrar algo que me prenda a retina. Um movimento, uma cara, uma luz diferente das demais. Faço os meus olhos deambularem entre os vidros dos cafés, onde grupos se abrigam do frio de Dezembro e celebram a amizade como se fosse um dos momentos marcantes das vidas de cada indivíduo pertencente a esse grupo. Não me conforta. Não sinto inveja. Não sinto nada. Observo com o olhar atento de um falcão como que em busca de um rasgo de inspiração, um sorriso poético, um movimento cativante ou uma palavra que sirva de ponto de partida. Não encontro e sigo o meu caminho para observar outros cafés, outros pontos de interesse, outras caras. Observo cada expressão facial na procura de um traço distintivo dos demais, mas não encontro. Vejo sorrisos, mas todos tão banais, todos tão cópia do mesmo. Não há um único sorriso genuíno. Os casais que encontro, partilham sorrisos entre si e entre abraços, como se um braço protegesse do frio. Esses sorrisos já são vítimas de uma rotina que não tarda em aparecer. É certo, não é possível manter o mesmo sorriso puro e espontâneo, que é ingénuo e ao mesmo tempo perfeito, mas é possível ele acontecer com regularidade. Não acontece, mas está tudo bem. São pessoas felizes que minimizam os seus problemas. Com olhar de sociólogo, coloco em dúvida a questão de vivermos numa sociedade com uma tendência cada vez mais depressiva e negativista. No meio de tantas telas, não vejo nenhuma pintada de preto.

O caminho continua e eu, preso ao meu modo de agir, continuo a observar. Caras, tantas caras, mas tão vazias de expressão. Talvez seja o meu olhar distorcido ou o meu imaginário a actuar sobre mim próprio. Eu vejo nos outros aquilo que sinto quando me olho ao espelho todas as manhãs quando acordo e todas as noites antes de me deitar. Olhares vazios que não me aquecem, bem pelo contrário, só me ajudam a cimentar o gelo em que me torno. Em plena consciência, torno-me cada vez mais distante daquilo que dizem ser uma condição humana; os sentimentos, as emoções. Pego nos meus pincéis, pinto a minha tela com a mesma cor de sempre. Começo por tentar preencher as cadeiras vazias do café com brindes a amizades que não conheço. As aguarelas servem-me apenas para dar aquela ideia de uma paisagem humedecida pelos pingos de chuva ou pela geada. Há sempre os acrílicos. Pinto expressões, pinto as ruas, faço os traços imperfeitos mais perfeitos que alguma vez alguém ousou fazer. Faço tudo isto, mas as ruas continuam quase desertas, os cafés continuam quase vazios, as caras continuam mais do mesmo. Nada se destaca. E eu imagino-me no meio delas, a celebrar uma qualquer coisa imaginária que não aconteceu. Perto do coração daqueles que me chamam amigo, com alguém que pudesse aquecer só com um abraço neste frio de Dezembro e onde as emoções são tão simples. A vida é feita de contrastes e se o meu imaginário é cheio, a realidade é vazia. A minha tela está pintada, toda de preto, como que em sinal de luto pela única pessoa que não existe. É aqui que entra o meu narcisismo e foco todo o texto na minha pessoa. Encontro-me nas sombras da minha própria existência, onde não há luz que ilumine estas ruas e pessoas. Largo o meu pincel, onde pintei com letras a minha tela outrora branca e agora preta.

Até quando irá permanecer o barulho? Só me quero dedicar de corpo e alma ao silêncio. Sim, sou egoísta. Tão egoísta ao ponto de apenas querer o melhor para todos. Um dia, também eu me vou incluir nesses "todos" que são tudo para este nada.