quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Contrastes


 As ruas estão praticamente desertas e nelas procuro encontrar algo que me prenda a retina. Um movimento, uma cara, uma luz diferente das demais. Faço os meus olhos deambularem entre os vidros dos cafés, onde grupos se abrigam do frio de Dezembro e celebram a amizade como se fosse um dos momentos marcantes das vidas de cada indivíduo pertencente a esse grupo. Não me conforta. Não sinto inveja. Não sinto nada. Observo com o olhar atento de um falcão como que em busca de um rasgo de inspiração, um sorriso poético, um movimento cativante ou uma palavra que sirva de ponto de partida. Não encontro e sigo o meu caminho para observar outros cafés, outros pontos de interesse, outras caras. Observo cada expressão facial na procura de um traço distintivo dos demais, mas não encontro. Vejo sorrisos, mas todos tão banais, todos tão cópia do mesmo. Não há um único sorriso genuíno. Os casais que encontro, partilham sorrisos entre si e entre abraços, como se um braço protegesse do frio. Esses sorrisos já são vítimas de uma rotina que não tarda em aparecer. É certo, não é possível manter o mesmo sorriso puro e espontâneo, que é ingénuo e ao mesmo tempo perfeito, mas é possível ele acontecer com regularidade. Não acontece, mas está tudo bem. São pessoas felizes que minimizam os seus problemas. Com olhar de sociólogo, coloco em dúvida a questão de vivermos numa sociedade com uma tendência cada vez mais depressiva e negativista. No meio de tantas telas, não vejo nenhuma pintada de preto.

O caminho continua e eu, preso ao meu modo de agir, continuo a observar. Caras, tantas caras, mas tão vazias de expressão. Talvez seja o meu olhar distorcido ou o meu imaginário a actuar sobre mim próprio. Eu vejo nos outros aquilo que sinto quando me olho ao espelho todas as manhãs quando acordo e todas as noites antes de me deitar. Olhares vazios que não me aquecem, bem pelo contrário, só me ajudam a cimentar o gelo em que me torno. Em plena consciência, torno-me cada vez mais distante daquilo que dizem ser uma condição humana; os sentimentos, as emoções. Pego nos meus pincéis, pinto a minha tela com a mesma cor de sempre. Começo por tentar preencher as cadeiras vazias do café com brindes a amizades que não conheço. As aguarelas servem-me apenas para dar aquela ideia de uma paisagem humedecida pelos pingos de chuva ou pela geada. Há sempre os acrílicos. Pinto expressões, pinto as ruas, faço os traços imperfeitos mais perfeitos que alguma vez alguém ousou fazer. Faço tudo isto, mas as ruas continuam quase desertas, os cafés continuam quase vazios, as caras continuam mais do mesmo. Nada se destaca. E eu imagino-me no meio delas, a celebrar uma qualquer coisa imaginária que não aconteceu. Perto do coração daqueles que me chamam amigo, com alguém que pudesse aquecer só com um abraço neste frio de Dezembro e onde as emoções são tão simples. A vida é feita de contrastes e se o meu imaginário é cheio, a realidade é vazia. A minha tela está pintada, toda de preto, como que em sinal de luto pela única pessoa que não existe. É aqui que entra o meu narcisismo e foco todo o texto na minha pessoa. Encontro-me nas sombras da minha própria existência, onde não há luz que ilumine estas ruas e pessoas. Largo o meu pincel, onde pintei com letras a minha tela outrora branca e agora preta.

Até quando irá permanecer o barulho? Só me quero dedicar de corpo e alma ao silêncio. Sim, sou egoísta. Tão egoísta ao ponto de apenas querer o melhor para todos. Um dia, também eu me vou incluir nesses "todos" que são tudo para este nada.

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