domingo, 15 de fevereiro de 2015

Um Dia Como Outro Qualquer - Escrita livre #2

Era apenas mais um dia. Um dia que se esperava mero cumprir de calendário. O frio que permanece no ar antecipa aquilo que se aguarda nas ruas.
- Um dia espero ter a possibilidade de acordar sem este frio... - pensava ele, sonhando que um dia todas as dificuldades pelas quais passa serão um passado distante. Cumprida que está a rotina do pós-acordar, ele segue para a rua. Está de chuva e, por isso, a temperatura está um pouco mais amena do que em casa. Longas foram as vezes que imaginou a chuva como a parte tristonha que um dia se vai embora para deixar brilhar o Sol e a Lua. O problema deste seu pensamento, é que nele está incluído o final do ano que é...frio e chuvoso.
Chegado ao seu café habitual:
- Bom dia! É um cafézinho se faz favor.
- Bons dias Richard. Ora, um cafézinho a sair - diz o empregado com ar de quem já está nisto à duas horas. - Então e diga-me lá, como vai ser hoje o dia?
- Nada de especial. Apenas mais um dia daqueles em que pouco mais se faz do que espairecer a cabeça. - diz Richard, meio constrangido com a pergunta. A razão para esse constrangimento era óbvia; esta é uma data em que ele se lembra de toda a sua vida, de tudo aquilo que procurava e que nunca encontrou. Custa-lhe aceitar que, no meio de tantas pessoas mais ou menos dignas do que têm, alguns que muito merecem pouco têm e alguns que muito têm nada merecem.`
Porém, o que mais custa a Richard é estar sozinho. Estar ali, sentado ao balcão de um café, esperando que uma cara amiga passe e o cumprimente e troque dois ou três dedos de conversa.
- Este tempo hoje está meio tristonho - diz Louis que acabara de chegar e se juntou a Richard.
- Até gosto destes dias chuvosos - diz Richard tentando esconder um pouco as suas emoções. Richard sente-se só, mais nestes dias do que nos outros. O facto de ser um romântico desanima-o. Parte da sua frieza foi concebida, nas suas próprias palavras «não preciso que os outros me vejam como um fraco ou como um sentimentalista». Richard considera os sentimentos como sendo a sua fraqueza, pois sempre que deixou os sentimentos falarem acabou por ser magoar. E essa mágoa faz com que Richard não acredite que algum dia terá a sorte que tanto procura ter. Pior ainda, ele acredita que serão os sentimentos e a forma como os tens esconder que ainda irão acabar com ele.
Muitos dos seus amigos não conseguem ver este lado de Richard. Os poucos que sabem, a maioria ignora e apenas uma minoria se preocupa. Só que até dessa minoria Richard tenta afastar as emoções.
- Está na minha hora. Até mais logo!
Richard despede-se do empregado do café e de Louis. De regresso a casa ainda deixa escapar algumas palavras por causa da chuva. Espera não se molhar muito e que de tarde não chuva. Pelo caminho deixa-se abater pelos casais que passeiam de mãos ou braços dados ou num abraço aconchegador. Ninguém, nem mesmo a pessoa mais chega a Richard, imagina o quão desconcertante estas imagens deixam Richard. Ninguém imagina o vazio que vai dentro de Richard. Só ele sabe o quão lhe dói ver algo tão belo. Não lhe dói por inveja; dói-lhe porque também Richard quer, para si, algo como aquilo que vê.
Chega a casa, não vai fazer o almoço. Primeiro, vai-se fechar no seu quarto, a ouvir baladas jazz. Primeiro, vai andar às voltas com o pensamento. Ele não suporta a ideia de estar só.

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