quinta-feira, 19 de junho de 2014

Que encontres o que procuras.

«O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.» Fernando Pessoa


Tentem imaginar alguém que caiu...com um joelho no chão e com o peito debruçado sobre o outro. Eu sinto-me assim. Não quero olhar em frente, apenas quero sentir os meus punhos e o único joelho que se mantém fora de contacto com o solo a aguentarem-me como se fossem os meus pilares.


Sim, eu sou um rapaz. Um rapaz que já devia ter aprendido a lidar com este tipo de perdas, mas o passado é assim; nós aprendemos com ele, ele volta a acertar-nos mais tarde.

É estranho perder alguém quando, em conversas descontraídas nas quais partilhamos sonhos e confissões do que esperamos para o futuro com amigos, dizemos que é com esse alguém que esperamos construir uma vida. Se na madrugada de Sábado tinha a certeza do que queria, hoje penso que foi uma bela chapada que levei da vida. Nunca digas aos outros aquilo que gostavas que te acontecesse a ti. Porque isso vai-se virar contra ti.

Não foi ela que me magoou ao dizer "acabou". Magoou-me foi o facto de eu ter visto nela o que não vi em mais ninguém. Eu sou cego. Poderia confidenciar muita coisa. Poderia dizer que a culpa foi minha ou dela. Poderia até dizer, passando aquela ideia de "estou pronto para outra", que já andava com outra rapariga debaixo de olho; estaria a mentir se o fizesse.

Poderia ter feito e dito tanta coisa. Sentimentos. Como um dia eu escrevi num dos meus esboços para músicas:

«Sem ti tento, sentir menos, sentimentos, que me fazem sentir medos».

Uma cadência tão bonita. Que eu devia guardar na minha cabeça para sempre como modo de vida.
Até um dia, minha querida.

Vem Sentar-te Comigo, Lídia

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
    (Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
    Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
    E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
    E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
    Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
    Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
    Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o o bolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
    Pagã triste e com flores no regaço.


Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

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